Nunca tive grandes expectativas em relação aos festejos da passagem de ano. Lembro-me como se tivesse sido ontem da minha primeira celebração fora de casa, aos 14 anos. Era uma festa grande demais. Houve outras, tantas. Formais demais, imprevisíveis demais, histriónicas demais... Raramente me apetece sair, nunca me apetece conduzir. Gosto de passagens de ano a dois; gosto de cozinhar de improviso e de provar um vinho desconhecido; gosto de aproveitar para fugir uns dias para o campo; gosto de ter crianças por perto. Mas aquela que me salta à memória em primeiro lugar, sempre que evoco o assunto, remonta ao pantanoso território da minha infância, há muitos e muitos anos atrás, quando a casa da minha infância ainda era uma casa feliz, quando a minha mãe arredava todos os móveis da sala e cobria os candeeiros com lenços coloridos para receber os amigos em festas que envolviam discos dos Abba, calças à boca-de-sino, runs-cola e milhares de cigarros. Qualquer pretexto servia para uma festa lá em casa, nos bons velhos (velhinhos) tempos, mas aquela passagem de ano, em particular, tornou-se memorável graças a um disco dos Abba que eu ouvi até à exaustão (de toda a gente...) pois adorava cantar (com a devida improvisação da letra) e dançar ao som da "música do ano novo". Aqui fica uma memória feliz da minha infância longínqua, para ouvir na companhia de um rum e de um cigarro, que eu dedico a todos quantos povoam as minhas memórias felizes.
Feliz ano novo, prima.
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